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toc


09:09 am, iulo
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garbage collector

Eu sou um apagador obsessivo. Menos por uma questão de privacidade; mais por uma compulsão por organização. Apago recados do Orkut, mensagens direcionadas que mando no Twitter, torpedos do celular e e-mails desnecessários na caixa de entrada.

Na vida de verdade também. Jogo fora revistas velhas, detesto contas já pagas em cima da mesa e faço um esforço (esse, quase sempre em vão) para não guardar sacolas que nunca vou usar. Não gosto de acumular entulho. Exceto frascos de desodorantes semi-vazios:

Minha saudável coleção.

Semi, porque todos têm alguma gota e numa emergência podem salvar o dia! Sendo emergência, diga-se, quando eu esquecer de comprar um novo, o que nunca acontece, mas ok. Precaução é precaução e não discutam.

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Pô, me contrata Nívea.


12:00 am, iulo
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muu

Eu ando surtado com esse lance de comida. Não consigo mais comer nada industrial em paz por causa dessa história de gordura trans. Aí tiraram a trans e colocaram um óleo de não sei que raios pra substituir a trans, que é menos nocivo e tem quase a mesma função da trans (deixar o alimento crocante e sensual). Porque a trans, além de aumentar o colesterol ruim, diminuía o colesterol bom. 

Mas o novo componente que substitui a gordura trans - que eu vou chamar de óleo de árvore de natal, porque eu não lembro o nome e tenho preguiça de procurar no Google - não reduz os níveis de colesterol bom, mas em compensação triplica a quantidade de gorduras insaturadas existente nos alimentos. É verdade, eu não sei o que nada disso significa; eu sou como um daqueles camponeses que saem correndo ao menor grito de OS INIMIGOS ESTÃO CHEGANDO, mesmo que os inimigos sejam, sei lá, uma manada de ratos

Eu só sei que não quero morrer estragado, e muito menos me tornar um velho capenga sem saúde, com uma perna de pau e um tapa-olho (?). 

O lance é que, veja que absurdo, agora o limite recomendado pelas organizações mundiais de saúde (mas no plural, iulo?), é de 3 bolachas de sal (o exemplo das bolachas de sal é para tomarmos como parâmetro geral, amigos dromedários!). Imagine, quem é o ser humano que pára pra comer bolachas de sal e come somente 3? 

Ih, já comi 3 bolachas de sal, é melhor parar, o óleo de árvore de natal vai entupir o meu cerébro

Eu não sei mais o que fazer, comida industrializada tem tanta porcaria que eu vou enfiar biscoito no tanque de gasolina do meu carro pra ver se ele anda mais rápido. 

O fato é que agora eu como biscoitos com peso na consciência. E a moda de TODOS os produtos é fazer propaganda na embalagem: 0% de gordura trans. Das primeiras vezes que li isso nos pacotes, eu fiquei feliz. Agora, ao invés disso me acalmar, me deixa tenso. Porque ontem foi gordura trans, hoje é óleo de árvore de natal, amanhã vai ser o quê? Tem gente aí me chamando de lunático, mas no dia que você acordar banguela, com um terceiro olho no meio da testa, sem pinto e com um rabo, aí eu quero ver. 

Pare pra pensar, é como se na época medieval você adentrasse numa taverna e levasse uma garfada nas costas, assim de grátis, fato corriqueiro. Aí o rei da terra média se rebelou e proibiu isso, por causa dos males que isso causava à população. Então as tavernas passaram a colocar nos seus letreiros: venham tomar a mais pura cerveja de cabritos montanheses - 0% de garfadas. Como assim, cara? Eu tenho que ficar feliz porque os infelizes tiraram a gordura trans que me FAZIA MAL? Pior que eles são descarados e escondem toda a verdade. Agora você não toma mais garfada ao entrar na taverna, em compensação, o garçom tuberculoso cospe na sua bebida (metáfora para o óleo de papai noel, alôw?) todas as vezes e ninguém vê. 

Outra, quem são essas organizações mundiais de saúde? Quem se organizou? Quem começou tudo e porquê ninguém me chamou? Como é que elas conseguem medir a quantidade exata de miligramas de nanos de milisegundos de certos componentes existentes na comida? Eles possuem teraupetas especializados em conversar com os alimentos? Oi, você aí brigadeirão, quantos gramas de aminoácidos você possui? Pode revelar, rapaz… olha lá, a receita federal vai te pegar, hein cara

Melhor ainda!, como é que eles conseguem saber qual é a quantidade máxima de gordura do tipo pseudo-neuronal-amniótica-explosiva que meu corpo consegue suportar diariamente? 

Eu não sei. Eu sei que a partir de agora só posso comer 3 bolachas de sal. Até o dia em que eles descobrirem que comer, como um todo, faz mal e mata. Eu vou virar um monge budista e me alimentar somente de grama. Eu vou virar o Mahatma Vaca. Um ser sábio e ruminante.


12:00 am, iulo
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esquálido

Eu sofri uma tentativa de assassinato. Bruta e violenta. Inclusive. Estou deitado na minha cama, o relógio marca quase 23h00; flerto com o sono. Minha cama fica abaixo da janela, que por sua vez é adornada com uma persiana vertical que quase sempre está fechada. Com um olho aberto e o outro em crise, embaralhando as letras das páginas e sonhando acordado com mousse de maracujá, percebo que do meu lado direito, na porção inferior da persiana jaz um ganhafoto ninja, pronto para me dar o bote. Tá, não era bem um ganhafoto. Ganhafotos são gordos e melequentos, e rosnam. Era um bichinho bonitinho assim, um verde bem claro, acho que é o que chamam de esperança. Agora, veja que idéia, o animal tenta me matar e dão a ele o nome de esperança. Ele tinha que se chamar caosdestruiçãoinfórtunioterremotoou qualquer coisa que o valha. 

Eu tenho problemas graves com bichos e sujeira e afins. Eu lavo as mãos 326 vezes por dia. Evito afagos no meu cachorro porque obrigatoriamente, ao final, tenho de ir em busca de água e sabonete. Não deixo a namorada me pegar com a mão suja - sendo que o atributo mão suja é atribuído por mim de acordo com critérios altamente subjetivos e arbitrários - brigo com minha mãe quando ela me pede para pegar algo melequento na cozinha e não como pipoca no cinema. Isso para as coisas do dia-a-dia. Quando a situação envolve animais selvagens, ferrou tudo. Sou acometido por uma mistura de medo com asco, que se traduz em arrepios pelo corpo e um leve embrulho no estômago. A questão é que eu moro com minha mãe e duas das minhas irmãs, fato que me torna indubitavelmente o homem da casa; o macho-alfa, imbuído do nobre dever de promover a matança de seres estranhos que adentrem o nosso lar. Mesmo que isso signifique que eu precise tomar 6 banhos e ficar em estado de choque durante as 3 horas seguintes. 

Bom, o grilo falante do Pinocchio veio me visitar e já tinha estragado meu sono, afinal eu havia saltado da cama e me colocado em estado de alerta total, prontamente preparado para qualquer hecatombe mundial que ocorresse em seguida. Acalmados os meus sexto e sétimo sentidos e a pulsação sanguínea que libera os meus poderes sobrenaturais, fiz a primeira tentativa de solução do problema, que foi devolver o meliante ao seu habitat natural. A essa altura, o habitat natural da criança era simplesmente o ar que preenchia o grande vazio exterior do 9º andar do meu prédio. Por sinal, como é que aquele jumento foi parar lá? Enfim. Com o bicho preparando o seu bote mortal na ponta direita da persiana, segurei a ponta esquerda e a levantei, com o intuito de elevar o grilo à altura da janela e assim poder desferir um golpe certeiro com o instrumento mortal de ataque dos Jedis urbanos (vulgo, sandália). Golpe este que mandaria o cretino para outra dimensão astral. 

O legal é que, com a ação de elevar um dos lados da persiana, formou-se uma ladeira. O irracional do bicho certamente pensou que aquele era o momento ideal para fazer um hiking maroto e veio caminhando em minha direção. Simplesmente. Prontamente eu domei meu instinto interior de fuzilá-lo com uma emanação de cosmo supremo e baixei a persiana de volta ao seu ponto de origem. Ele, obviamente, ficou puto por ter a sua diversão interrompida, recobrou os sentidos e lembrou-se afinal qual era a sua missão: me assassinar. Jogou-se da persiana em minha direção, num vôo rasante e cruel. 

Bravamente desviei-me da tentativa de estupro. O bandido bateu na minha perna direita e caiu no chão. Eu pensei: fodeu negão!, vou ter que interagir com o bicho. Por interagir, entenda: retribuir a tentativa de morte. Mas aí eu pensei que matar aquele grilo maldito iria acarretar na formação de um vatapá verde no piso branco do meu quarto. E depois eu teria que limpá-lo. Sem falar que o maior bicho que eu houvera matado na vida foi uma lagartixa, mesmo assim, quando da minha puberdade e a embriaguez de hormônios me dissera de maneira inconsequente, hipnótica e zumbística: pegue este pedaço de pau e mate-a, mate-a, MATE!, aí eu fui lá e, pimba, matei a pobre da lagartixa com uma paulada no meio do corpo. Fiquei 4 dias sem dormir, completamente traumatizado. Então decidi que não tentaria mais ser homem o bastante para matar qualquer ser-vivo maior que uma barata. 

Dado esse pequeno histórico, tive uma idéia genial. Peguei uma camisa qualquer que eu já não usava com tanta frequência e joguei sobre o bicho, com o intuito de enrolá-lo e lançá-lo fora do meu reino. Vamos relevar que o grilo radioativo e fluorescente era detentor de uma inteligência infinitamente maior que a minha e conseguiu escapar da camisa por 2 ou 3 vezes. Na última tentativa, joguei a camisa, enrolando-a bem com os pés ao redor do verde-do-abismo, envolvi as mãos em sacos plásticos, capturei a camisa, dei uma leve apertada com o meu polegar opositor para o animal saber quem manda nessa merda. Dirigi-me até a sala, onde a janela é maior, e lancei através dela o conjunto de 60% algodão + 25% poliéster + 15% bicho-nojento que se encontrava em minhas mãos. A camisa foi e o grilo ficou. 

o o o

Nessas horas eu sinto a imensa falta de ter um dragão de estimação chamado Toby. Simples. Toby!, pega o grilo. Solta o grilo. Toca fogo nele. Pisa. Morde de novo. Mastiga. Cospe. Incinera. Lambe as cinzas. Agora engole. Arrota. Isso, Toby - coisa mais linda do papai. Toma um biscoitinho, toma.


12:00 am, iulo
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shy

Ando desconfiado que eu sofro levemente de transtorno obsessivo compulsivo. Coisas bobas, algumas normais até. Por exemplo, eu não consigo tocar em nada e ficar sem lavar as mãos. Especialmente dinheiro. E coisas melequentas. Mas isso é relativamente normal. Exceto que eu não paro quieto até achar uma torneira. E que às vezes eu deixo de comer alguma coisa pra não ficar com a mão grudando. 

E também o fato de que as notas na minha carteira precisam estar alinhadas e todas colocadas corretamente, uma em cima da outra, sem ficar de cabeça pra baixo ou face com face [depois de arrumar essa lindeza, água e sabão]. 

Uma outra peculiaridade é que eu passo o tempo inteiro repetindo alguma coisa nos meus pensamentos. Normalmente, a placa do meu carro ou o número do celular de minha mãe [agora sim, chegamos na loucura]. 

Eu compartilhei isso com colegas de trabalho e, gentilmente, eles riram e me chamaram de doente, uma beleza¹. O problema rolou mesmo quando eu fui falar com minha mãe que estava desconfiado da possibilidade. Eu ainda falei: mas mãe, o número do seu celular é tão bom de ficar pensando repetidamente. Não deu pra amenizar. Ela disse que ia procurar um psicológo pra mim, senão eu ia morrer desse jeito, louco. Outra beleza². 

Mas se vocês soubessem o número dela [que eu não vou colocar aqui], também iam querer ficar pensando e repassando na sua cabeça. É algo do tipo 8833-5586. Os 3 primeiros pares de números se repetem e o último número termina com seis, ou seja, meia. Que é melhor ainda de falar. 

Além disso tem o fato de eu não conseguir dormir com a porta do guarda-roupa aberta. Se não fechar, eu não durmo. 

E tem aquela outra, de passar 6 vezes na porta do meu quarto depois de acordar, apagar e acender a luz 11 vezes antes de ir pro trabalho e sentir atração por ornitorrincos. Tá, essas últimas eu inventei. 

Mas quando eu era moleque, a coisa era pior. Se eu coçasse o braço esquerdo, tinha que coçar também o braço direito, mesmo que não houvesse coceira. Sempre tinha essa coisa de simetria. Se eu estalasse um dedo da mão direita, e não fizesse o mesmo na esquerda… era preferível arrancar o dedo fora. Como meus amiguinhos do trabalho disseram, era capaz de alguém me encontrar atrás do sofá, com as pernas cruzadas, me balançando pra frente e pra trás, apertando as mãos, chorando e dizendo: eu não consigo estalar o deedooo, buaaa

Mas aí o tempo foi passando e eu fiquei só com a coisa da repetição mesmo. Quase bom, hum?
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Espero continuar são e bonito desse jeito.