Esse lance de torcer nas olimpíadas me causa uma certa crise. Eu sou defensor da idéia de que o mais bem preparado em cada modalidade deve ganhar a prova. E por mais bem preparado, eu quero dizer aquele que nos últimos eventos esportivos da sua categoria foi o campeão. Não vale chegar um desconhecido numa prova qualquer, dar um golpe de sorte e levar uma medalha de ouro de um já consagrado e reconhecido vencedor. Por exemplo, se o Brasil foi o campeão da última copa e é consenso que somos os melhores do mundo, o esperado e ideal - segundo a minha concepção torta de mundo - é que o Brasil seja o campeão do futebol nas olimpíadas. Simples. Se alguns judocas brasileiros foram os mestres mundiais nos últimos campeonatos, que levem o ouro também nas olimpíadas.
Tá. Eu comecei os exemplos citando o Brasil, tudo normal, claro. Se eu sou brasileiro, isso ajuda contar pontos perantes os meus amigos leitores altamente diplomáticos e patriotas. O problema é que, segundo essa minha lógica praticamente ilógica, em diversas modalidades eu torço contra o Brasil.
Vamos lá, ginástica olímpica: eu torço para a Shawn Johson dos Estados Unidos. Cara, a menina tem 17 anos de idade, faz as provas como se estivesse brincando de pique-esconde ou jogando Banco Imobiliário contra velhinhas diabéticas que acabaram de ter um ataque cardíaco e perderam metade do movimento do corpo. Ela termina cada execução com um sorriso que dá medo. Basta assistir alguns minutos das provas, nem precisa ser especialista. Você percebe que as outras competidoras só faltam defecar-se nas respectivas roupas coloridas para terminar os exercícios e, ainda assim, mostram um certo desequilíbrio no final. A anã da Shawn Johson vem, faz tudo sorrindo, não desequilibra e ainda é uma graça.
Agora me diga, numa situação dessas, como é que eu vou torcer para a coroa daDaiane dos Santos ganhar na prova do solo? Não dá. Até porque eu acho um pouco de injustiça uma pessoa com uma cabeça daquele tamanho competir contra pessoas normais. Sério, aquela cabeçona deve favorecer alguma coisa nos movimentos, deve fazer um pêndulo que contra-balanceia as forças do universo ou ela é capaz de abrir um portal hiper-dimensional no cosmo; sei lá, cara.
Antes que me crucifiquem, não é que eu não torça pela Jade Barbosa, por exemplo. Eu fiquei feliz pela performance dela, e espero que ela retorne nas próximas olímpiadas com condições reais de ganhar alguma coisa, e que não seja dependendo de um pontual e aleatório mal desempenho das rainhas do esporte. E espero também que ela procure um psico-veterinário-teraupeta e aprenda a parar de fazer aquela cara de choro o tempo todo.
Um exemplo positivo, ainda no mundo da ginátisca: o Diego Hypólito (mais conhecido como cara-de-pá) foi o campeão mundial fácil, fácil. Merecia ganhar nas olimpíadas também, e eu torci fortemente por ele. Fiquei triste quando ele perdeu, ainda mais por causa de uma queda. Tomara que ele esteja tão bem preparado para daqui há 4 anos e que não haja tanta pressão e expectativa em cima do rapaz.
Um exemplo neutro, tendendo ao negativo: Michael Phelps. Eu torci para o cara. Ele é muito monstro. Competir em 8 provas e ganhar em todas?, o cara merece e pronto. Nada de discurso anti-americano de segunda categoria, façam o favor, hein? Aí vem o César Cielo e ganha o ouro nos 50m livres. Foi lindo. Mesmo. Eu chorei junto com o cara. Mas só porque ele e o Phelps não competiram na mesma prova. Porque caso isso tivesse ocorrido, sinto muito e vão pastar - eu torceria pelo Phelps.
Bom, vamos lá, esperar que o Brasil ganhe no futebol, no vôlei e no iatismo (a gente tem a manha em mais alguma coisa?).
o o o
No momento em que pensei em escrever este texto, as lésbicas brasileiras perdiam por 1 a zero para as alemãs no futebol feminino. Aí eu tive que ir trabalhar. Malditos esportes olímpicos que acontecem em horários inadequados.