Uma breve história sobre os metódos pouco ortodoxos de educação da minha mãe, aplicados sobre a minha pessoa.
Quando guri, magrelo, ainda mais cabeçudo e esmulambento, eu andava com aquelas camisetas regatas com a gola frouxa. Eu tinha o hábito feliz de mordê-las, babá-las e deixá-las com um aroma desagradável. Depois de muito reclamar, minha mâe chega com um lençol na mão e simplesmente me diz que vou ter de comê-lo. Até o fim. Nâo vou dar mais relatos sobre a cena iulo com 1kg de lençol na boca chorando e babando. Pergunte se eu comi mais alguma camisa novamente.
Pouco mais tarde eu desenvolvo a habilidade ninjitsu de vir andando pelo corredor da sala, dar uma espécie de estrelinha apoiando as mãos no forro, e cair de cabeça pra baixo no sofá. E lá permanecer com as pernas pra cima, plantando bananeira no canto da sala. Depois de muito reclamar, minha mãe me coloca pra fazer o mesmo numa cadeira, parecida com aquelas de praia, que se encontrava na varanda. O fato é que me doeu o pescoço em muito naquela armação de ferro. Ela, como boa artista, até hoje acha que a infabilidade do metódo é devida à sensação de enjôo que me acometera ao olhar para o céu de cabeça para baixo. Os meios já não importam mais. Algum dia mais eu plantei bananeira no sofá da sala? Tão inocentes esses leitores.
Depois de mais velho, mãe insistia para que eu levasse o traste do cachorro para passar inúmeras vezes ao dia. Fato tal que contribuiu para eu não querer mais papo com ele. Com frequência eu nâo o fazia, ele à urinar pela casa, minha mãe à me gritar, eu à querer espancar o animal e o circo formado. Depois de muito reclamar minha mãe finalmente quebra um ovo cru no chão do meu quarto, joga raspas de lápis de cor, catchup, maionese [leite em pó, se não me engano] e risca-o com lápis de olho. Explica-me com todo carinho do mundo que era aquilo que ela sentia quando o animal fazia o que fazia pela sala.
O cachorro é rebelde e continou fazendo artes pela sala. Mas a culpa não foi minha.
Agora, aos 19 anos, por ser o mais cedo à acordar da casa, e pelo fato do banheiro se encontrar perto do quarto dela, desenvolvo o hábito de não dar a descarga pela manhã, buscando não incomodar o sono alheio. Dito isso, ontem à noite fui informado de que se o fizesse mais uma vez, sofreria consequências drásticas. Dito e feito. Hoje pela manhã, saio do chuveiro, abro a porta e dirijo-me para o meu quarto. No caminho, ecoa o som frio e denso pela casa: iulo. Ferrou. Volto-me para o banheiro, aperto o bendito botão.
Avisado de que sofreria, minha mãe em toda sua sabedoria, eu em toda minha falta de noção, e nós dois vivendo aquela relação saudável filho-maduro-crescido-que-deveria-ser-tratado-com-mais-dignidade-pq-vai-fazer-20-anos e mãe-louca-com-raiva-gritando-às-seis-horas-da-manhã, ela me informa que para aprender, meu celular seria confiscado por uma semana. Volto para o quarto. Onde está meu celular? Rá. Ela foi mais rápida.
E olhe que eu corria quando ela queria me bater. Enfim. Estou sem celular o dia todo. Não me liguem, não mandem mensagem. E chorem.
O legal também é que eu sem celular é que nem quando estou sem perfume: sinto como se estivesse sem cueca. E melhor, no meio do caloroso acontecimento, saí de casa apressado, esqueci-me do perfume E do desodorante.
Todos juntos faremos uma pausa para reflexão em pró ao dia de iulo.
-Ah, seu rídiculo.
-Aris, se eu estou sem celular, você também está.
-Mãaaae.
Então não me perguntem porque eu sou assim.