
Ninguém deu muita atenção à notícia - até mesmo pela (pouca) relevância do fato em si - inclusive eu mesmo, que só tinha feito um comentário rápido no Twitter:
- Salvador me envergonha por causa do Rebolation? Carla Perez? NÃO! Vergonha mesmo é dar título de ‘Cidadão Soteropolitano’ para Galvão Bueno.
O ‘acontecimento’ se deu na noite da quinta-feira passada, dia 22 de abril. Mas até agora eu estou entalado com o assunto. Primeiro, claro, porque eu não gosto do Galvão Bueno e acho que ele é uma das figuras públicas mais imbecis no cenário brasileiro. Ponto. Ele é chato e irritante – ele é aquele tio sem noção que no natal faz a piada do ‘é pá vê ou pá comer? ’ e ninguém quer ter por perto, mas todo mundo fica calado porque é da família.
Como o narrador é famoso, todo mundo se faz de condescendente (como a TV Bahia, retransmissora da Globo, que fez uma matéria puxa-saco à respeito - se quiser ver o vídeo, clique aqui).
O segundo motivo de eu falar nesse assunto é a revolta que me causa a falta de foco da prefeitura de Salvador, sem falar de todos os absurdos escondidos por trás desse ato ‘generoso’.
A entrega desse título foi proposta pelo vereador Paulo Magalhães. Antes de mais nada, fica aqui o lembrete de que o papel de um vereador é ‘mostrar os problemas da comunidade e buscar providências junto aos órgãos competentes, denunciando o que estiver ilegal ou imoral à população’. Cabe ao vereador também ‘a função de fiscalizar as contas do Poder Executivo Municipal’ e ‘legislar sobre assuntos de interesse local’, ou seja: um vereador é eleito para fiscalizar, propor leis municipais e fazer valer as leis existentes, visando o bem-estar da população.
Tudo que foi feito na solenidade de entrega do título de cidadão soteropolitano ao bonito do Galvão Bueno NADA tem a ver com as funções acima. Quaisquer que sejam os motivos escusos nessa solenidade liderada pelo vereador Paulo Magalhães, são todos inúteis e degradantes para os baianos:
- Se o objetivo era mostrar ao país como nós, baianos, somos legais…
Para qualquer pessoa que pense, só mostra como nós, baianos, somos tolos. Tolos por votar em pessoas que fazem cenas como essa, ou em pessoas que criam a líder de audiência TV Brasil, ou em pessoas que lançam um monte de obras e chamam de ‘PAC2’ sem nem antes terminar o já engodado ‘PAC1’, ou em pessoas que… bem, a lista é muito grande.
- Se o objetivo era fazer uma média com o Galvão Bueno…
Somos tolos ao quadrado por esse tipo de ovação a uma figura inútil que nunca fez nada por Salvador, exceto vir ao carnaval (como milhões de outras pessoas) e fazer amizade com semi-celebridades locais.
- Se o objetivo era mostrar à população de Salvador que o atual governo como um todo é legal e gente-fina bacarai…
Isso é uma pena enorme. Porque somente a população mais carente e sem acesso a educação é que vai engolir essa pilha. Para tornar a coisa comunitária, o grupo Olôdum embalou o evento, teve roda de capoeira, centenas de pessoas no lugar e no vídeo linkado lá em cima você pode ver o Galvão cumprimentando um punhado de populares… enganação para as massas?
- Se o objetivo era fazer uma exposiçãozinha específica do vereador e do seu grande trabalho…
Peloamor, né, cara? Com dinheiro público?
- Agora, se o objetivo (eu disse, se) era roubar uma graninha, ajudar a empresa de algum parente ou beneficiar alguém de maneira ilícita ou indireta…
De certo isso foi feito com êxito.
É vergonhoso ver que ninguém no poder municipal e nem as ‘grandes’ figuras públicas de Salvador se mostraram contra essa pasmaceira em momento algum. Participaram do evento a diretora do Ara Ketu, o ex-pugilista Acelino Popó e João Jorge, do Olôdum - além do exímio cantor Durval Lélis, do Asa de Águia. Todos concordando com a cena e achando LINDO.
Fosse Galvão Bueno uma pessoa de bom senso teria negado o ‘presente’ e respondido às figuras envolvidas que usassem o dinheiro da solenidade para cuidar dos alagamentos da cidade, para melhorar a segurança nos bairros ou para investir na saúde ao invés de deixar centenas de pessoas esperando atendimento gratuito. Mas acho que o ego conta mais!
Para ficar CLARO, Galvão foi escolhido, segundo os organizadores da solenidade, porque ‘sempre demonstrou admiração pela cidade’ e porque ‘sempre divulgou nossa cultura, nossas belezas naturais, sempre ajudou a incentivar a prática do esporte na Bahia e sempre se disse apaixonado pela capital baiana’.
PUTZ.
Se for por demonstrar admiração e paixão, é melhor dar o título, sei lá, pra mim, que nasci no interior da Bahia e sou defensor constante e ferrenho de patrimônios culturais soteropolitanos como Carla Perez e Beto Jamaica. Ou então dava para a Preta Gil que apesar de ser uma cantora MUITO boa, sempre canta clássicos baianos duvidosos nos repertórios dos seus shows (vide isso).
Honestamente, o sanduíche de kani com cebola, alface, tomate e azeitonas que fazem ali no Imbuí merece muito mais o título do que o Galvão.
Por fim, baianos e brasileiros, vamos parar de ser bobos e de acreditar em todo tipo de fogos de artifícios explodidos pelos políticos. Se você, como eu, está desacreditado da política, ao menos fale sobre fatos como esses e emita sua opinião para amigos, parentes e vizinhos e impeça que pessoas sem critérios venham a ser novamente eleitas. Se o vereador Paulo Magalhães deixar de ganhar na sua próxima candidatura, já será uma pessoa a menos fazendo besteira com o nosso dinheiro. Mostre para os políticos que você está de olho no que fazem e que não engolimos qualquer ‘ceninha’ feita por eles.
Divulgue! Já é um começo.