Eu tinha esquecido de contar sopre o japônes careca sem-vergonha que me apareceu na viagem pro Rio, em maio. Mas aí hoje eu lembrei, porque amanhã tô indo pra lá,again, só que dessa vez à trabalho. E, assim, viajar à trabalho é meio ruim, saca? Porque as cidades (como Maceió da última vez) são lindas e tudo, mas o esquema é super-cansativo. Porque você chega no aeroporto e vai direto para a empresa cliente/fornecedor da vez e fica lá o dia inteiro resolvendo as coisas e tal, e quase sempre sai bem além do seu horário normal de trabalho, afinal, as poucas horas no local têm que ser aproveitadas até a exaustão máxima do ser. Aí tarde da noite você pega um táxi da tal empresa e vai pro hotel. Aí não é bem a sua casa, saca? Ele até fica de frente pro mar, mas aqui em Salvador também tem mar, e eu meio que trabalho praticamente dentro dele, com sal na boca e tudo.
Então ficar hospedado em hotel de frente pro mar não é necessariamente a oitava maravilha do mundo or something. Eu nem choro, nem nada. Especialmente quando você está cansado pacas, e já tá escuro, e você só quer saber de dormir, e esqueceu o shampoo. E hotel, por melhor que seja, sempre tem aquele cheiro de casa de avó, sabe? Cheiro de lençol guardado há muito tempo. E você ainda não tem as manhas emacetes com o ar-condicionado, para saber que momento ele vai ficar brutalmente gelado de acordo com uma escala x de tempo; daí você acaba indo dormir com calor e acorda de madrugada quase congelado - praticamente sem pinto.
Ah, sem falar no sempre presente pânico de ser violentado durante a noite por algum funcionário inescrupoloso que eventualmente tenha acesso à chave do seu quarto. Ainda mais se tratando do Rio, né?, que o exército pode querer te entregar para os traficantes da facção inimiga. E baiano não é um povo assim muito querido, tipo, vida afora.. então, vai saber? Baiano só é lindo na sua própria terra. Aquela coisa; quando nego fala “ah, vamos pra Bahia!”; é aquela alegria, um fusuê, tipo “êeba, vamos para a Bahia, ver um monte de baiano, se esfregar nos baianos, suar com os baianos, passar acarajé no cabelo, vamo, vamo!”. Mas aí, quando tem aquele lance de “olha, tem um baiano vindo pra cá”, aí a galera já não tá mais tão na vibe assim. “Ah, baiano, gente? Aquele sotaque, aquele ser malemolente e com cheiro de moqueca de camarão? Ahh, o Caetano tava aqui semana passada já.. sei não, hein? Ihh…”. Baiano só é lindo quanto há muitos exemplares juntos e som alto, pipocando. Ou então com mar. Baiano com mar é uma obra de arte. Esplêndido.
Mas então, em maio tava eu lá no pão-de-açucar com a magnânima patroa, vendo um monte de plantinha e ventinho e pedrinha e andando de bondinho. Tirando fotos, claro. Foto vai, foto vem. Eu tiro uma dela, ela tira uma minha. Aí passa o sem-vergonha do japônes careca, de mochila nas costas, que pergunta algo como “do you wanna help?, i can take a picture of you two”. Eu respondo um “oh, no, thanks, it’s ok” e sorrio simpaticamente. Ele faz aquela cara de quem está retribuindo a simpatia (afinal, ele nem sabe o que é um baiano, nem do que somos capazes), vai andando e larga um: “she is pretty, man!”.
Pô, japa? Eu sei que ela é, né? Mas aí eu fico meio sem reação; nem deu pra largar o automático “i know, i know”. Porque só no Rio de Janeiro, em cima do pão-de-açucar, é que você encontra um japônes de cabeça raspada falando (para você, o que é melhor) que sua namorada é bonita. Pior, só um japônes careca e sem-vergonha fala para você algo sobre sua namorada e conquista sua simpatia. Mas foi bom. Se você tiver lendo, japa, obrigado. Deve ter garantido o bom-humor da pequena pelo resto do dia - elogio internacional, coisa e tal. Mas assim, da próxima vai ter troco e eu solto um “thanks, weird bald japa safadão”, seguido de um fluxo quente de dendê no olho. E tenho dito.