11:04 am, iulo
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pare de me entender

'Para de ser tão sensacional. Porque tudo que eu tenho pra oferecer é essa inquietude e um mau-humor matinal terrível. Pare de ser essa criatura docemente gentil enquanto eu me ocupo com minhas crises pessoais que me estraçalham de vez em quando e te levam junto. Pare de escrever poesia com esses seus olhos lindos, quando tudo que eu tenho são palavras amargas e viscerais. Não me traga mais chocolates enquanto eu reclamo de você, de mim, de nós.

Pare com esse sorriso de menino enquanto eu devaneio nessa minha “adultice” fajuta. Não me diga mais que eu sou incrível e que te faço feliz. Cada gesto sublime seu significa uma oportunidade de eu me convencer do quanto eu nunca faço nada pra merecer.

Pare de ser certeza no meio do meu oceano de dúvidas, pare de ser música nesse meu silêncio sepulcral, deixe de lado essa tolerância que parece que não termina nunca. Pare de me impulsionar pros meus sonhos enquanto eu não faço a menor ideia do que fazer para apoiar os seus. Pare de ser essa atenção enquanto eu me distraio. Você sabe tanto sobre como fazer dar certo e eu sou campeã em fazer tudo errado. Pare de me esfregar a tua nobreza na cara enquanto eu aprimoro as minhas paranóias.

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12:38 pm, iulo
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somos pó

Coloco os fones de ouvido e sigo em direção à praia. Alongo pernas e braços preguiçosamente. É domingo. Jovens pais brincam com seus filhos na areia. Caminho sem pressa, de costas para o sol. Na areia molhada e dura as ondas vez ou outra alcançam meus pés. Um casal em torno de seus 50 anos caminha de mãos dadas. Homem e mulher me observam despreocupados ao passar. Me pergunto se da mesma forma que eu tento projetar a minha vida futura neles, eles revivem o passado em mim. Se veem em mim a semelhança de um filho, se sorriem por dentro, se cochicham entre si uma piada particular. Começo a correr. Meus pés fazem o peso do mundo reverberar pelas minhas pernas enquanto eu o pisoteio compassadamente. Pessoas de diferentes idades praticam diversas atividades na areia. Homens jogam vôlei ou futebol, mulheres fazem alongamento. Um casal jovem faz corridas curtas e rapidíssimas. Perco o fôlego e volto caminhando pela parte mais fofa da areia. No chão, pegadas contam passeios. Mais casais andaram por ali com filhos pequenos. Um homem de pé grande passou com um cachorro de médio porte. É um esforço prazeroso ver o mundo ceder ao peso do meu calcanhar. Pelas marcas no chão vejo que uma moça caminhou sozinha, e apenas me dou conta de que era uma moça e sozinha quando tento comparar a minha pegada com a dela. Meu pé me parece maior do que eu imaginava. Quantas vezes mais passarei por essa praia?, quais pegadas deixarei nela? Somente a minha? Haverá companhia? Precisamos todos de companhia?, questiono vagamente e o mar ao meu lado parece não se importar. Certamente não serei o pai que brinca com o filho na areia. Serei o marido de cabelos grisalhos que segura a mão da sua esposa numa manhã parcamente ensolarada de domingo? Com certeza não serei o rapaz que caminha com o cachorro bobo e babando ao lado. Começo a me sentir desconectado de tudo – da terra que piso, do céu que me cobre, das pessoas que me rodeiam; o mar é apenas uma poça de tão distante que me encontro dali. Estou flutuando na atmosfera. Não sou o surfista esquisito que conversa com uma moça morena, forçando uma intimidade que não existia alguns minutos antes. Olho para trás e minhas próprias pegadas não se distinguem de nenhuma outra. Tudo é um emaranhado de infinitos grãos irregularmente amontoados. Eu sou mais um. Minha solidão é apenas mais uma. Estamos todos sós.


09:33 am, iulo
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love love love

'Nós aceitamos o amor que achamos que merecemos'.

Qual amor eu mereço?, é a pergunta dessa existência.


09:58 am, iulo
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03:58 pm, iulo
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fuck us all

Viver é mesmo uma coisa escrota. Que merda é essa de fingir o tempo inteiro que se está bem? Ninguém pode ter fraquezas, ninguém pode falar delas, ninguém pode tirar o mundo dos ombros para enxugar o suor da testa. As pessoas estão sempre tão preocupadas em esconder o que sentem que não sabem lidar com minhas respostas. Meus vizinhos, que me conhecem desde criança, e acham estranho o meu reaparecimento, me perguntam: já casou? Casei, separei, tô de volta. Teve filhos? Não, não tive filhos. Por que raios eu vou esconder que me separei ou vou inventar sorrisos se o dia não é de se sorrir? O que tem pra hoje é essa cara aqui.

É grande a quantidade de amigos que dizem que eu me exponho demais, apenas por falar o que eu penso e sinto. Cara, quer viver numa caverna? Vai lá, me deixa aqui. Não enche a porra do saco.

Eu não me inscrevi pra nenhuma corrida onde vence quem é mais feliz, mais cedo e por mais tempo.

E daí as pessoas que sabem o que aconteceu me perguntam: como você tá? Eu tô bem. E me acham um escroto por estar bem. E n’outro dia novos personagens me perguntam: você tá bem? Hoje não tô bem, tô assimilando um monte de coisas e tem um buraco bem grande na porra do peito. E as pessoas acham que eu sou um escroto.

Eu tô bem. Eu atravessei uma porta com socos em meio a uma crise de ansiedade. Eu tô ótimo. Eu choro vendo gifs de gatos, e nenhum de vocês tem um caralho a ver com isso. Eu tô bem. Eu bebo mais do que deveria de vez em quando.

Se qualquer um de vocês é diferente disso, parabéns. Agora vão ali pro canto, que eu ainda não zerei o jogo e não tô com pressa pra isso.


04:10 pm, iulo
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'​Quero apenas cinco coisas. Primeiro é o amor sem fim. A segunda é ver o outono. A terceira é o grave inverno. Em quarto lugar o verão. A quinta coisa são teus olhos. Não quero dormir sem teus olhos. Não quero ser sem que me olhes. Abro mão da primavera para que continues me olhando.'

(Pablo Neruda)


04:03 pm, iulo
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'There are all types of love in this world, but never the same love twice.'

(The Great Gatsby, F. Scott Fitzgerald)


10:52 am, iulo
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inveja

Eu tenho profunda inveja de quem aceita, de quem acalma o próprio coração, de quem não tem tempo pra pensar demais. De quem é raso, de quem ri de tudo, de quem não faz questão de entender. Eu tenho profunda inveja de quem é fútil, de quem é monopolizado pela lógica cartesiana das coisas, de quem é bitolado pela fé cega, de quem é adestrado por deuses maus.

Eu tenho, profunda e confessa inveja de quem não viaja no tempo, não sofre pelo amanhã, não se lembra do que comeu. A minha memória, por mais curta que seja, também é seletiva. Ela se esquece de compromissos, receitas, senhas, mas jamais de sentimentos.

A minha vida, me é contada como se fosse a história de um estranho que mora no apartamento ao lado. A minha própria história se vai perdida, mas ali, no meio daqueles vultos de lembranças, eu ainda consigo enxergar a dor, a doçura, a euforia, as saudades que senti.

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05:21 pm, iulo
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o que li em 2013

Minha obsessão acha importante citar que os livros abaixo estão listados na ordem em que li. E que só há um spoiler - sobre a série ‘Guia dos Mochileiros da Galáxia’. Mas você vai ser avisado antes de topar com ele.

O Evangelho Segundo Jesus Cristo, José Saramago

É lindo. E o resto da minha opinião está aqui.

Os Enamoramentos, Javier Marías

Recomendadíssimo. Um trecho aqui.

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09:58 am, iulo
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'O que acontece é que, quando estou com você, eu me perdoo por todas as lutas que a vida venceu por pontos, e me esqueço completamente que gente como eu, no fim, acaba saindo mais cedo de bares, de brigas e de amores para não pagar a conta. Isso eu poderia ter dito a ela. Mas não disse.'

(Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios, Marçal Aquino)


08:00 am, iulo
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'E eu, no que acreditava? Difícil dizer. Talvez na beleza, a única coisa que me pôs de joelhos no mundo. À minha maneira, eu seguia nesse tipo de religião.'

(Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios, Marçal Aquino)


01:19 pm, iulo
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'Mas isso havia acontecido comigo mais de uma vez na vida: eu já havia me recusado a permitir que as convenções ditassem minha conduta, e terminara aprendendo, após fazer o que bem entendia, que os meus sentimentos mais básicos eram às vezes mais convencionais do que a minha noção de um imperativo moral inabalável.'

(Patrimônio, Philip Roth)


12:01 pm, iulo
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'Ele nunca foi capaz de entender que sua capacidade de renúncia e disciplina férrea eram atributos excepcionais de que nem todos partilhavam. Acreditava que, se um homem com suas muitas desvantagens e limitações tinha tais atributos, então todos os possuíam. A única coisa exigida era a força de vontade - como se força nascesse em árvore.'

(Patrimônio, Philip Roth)


12:07 pm, iulo
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até o dia em que o cão morreu

Trechos do livro Até o Dia em que o Cão Morreu, do Daniel Galera:

‘Eu me sentia cansado. Velho, em certo sentido. No sentido de que era tarde demais pra morrer jovem.’

_

‘Perguntei pro meu vô se ele não cansava de ficar sozinho lá. Demora muitos anos pra gente descobrir o que é estar sozinho de verdade, ele me respondeu. Pode ser difícil de acreditar pra ti, mas eu não sinto solidão aqui. Tu nunca te sentiu sozinho morando em Porto Alegre?

Me lembro das frases exatas. Lembro como entendi o que ele queria dizer. Imaginei se sentiria mais ou menos solidão caso morasse num fim de mundo como aquele. Talvez fosse sempre a mesma coisa.’

_

‘É difícil imaginar sensação de maior conforto e serenidade do que esta, que surge da ilusão elaborada de que fazemos parte da vida de uma pessoa a ponto de estarmos verdadeiramente unidos, de tudo estar bem se o outro estiver por perto, se apenas nos for dada a chance de saciar os desejos e interesses um do outro, de tolerar um ao outro quando sacrifícios forem necessários e deixar que todo o resto se foda, se destrua e morra, porque não haverá problema. Aquele olhar dela era uma manifestação perfeita dessa ilusão confortadora. Durava pouco, apenas instantes, como qualquer êxtase, mas era eficaz.’

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‘Mas não foi isso que ela disse, essa era a maneira viciosa como meu cérebro insistia em registrar as coisas.’


01:19 pm, iulo
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o céu dos preconceituosos

Vocês acham que eu sou antipático - acham sim, tá tudo bem. Mas eu sou o tipo de pessoa que precisa de mais de uma prova antes de desgostar inteiramente de alguém. Eu sempre quero gostar das pessoas. O fato de eu acabar não gostando da maioria delas não vem ao caso, calem a boquinha e se atenham ao argumento. O que vale aqui é a intenção. Não é? Digam que sim, galera. Caramba, viu? Tá difícil ser legal.

Vou dar um exemplo pra vocês. Não gostei muito do livro ‘Divórcio’ do Ricardo Lísias e antipatizei bastante com o autor desde o momento em que abri o livro e vi uma foto dele. O texto concluiu o restante do processo de crescimento e formação da antipatia. Mesmo assim comprei outro livro dele, ‘O Céu dos Suicidas’, para me provar que o autor talvez venha a ser um cara legal. Quero dar o benefício da dúvida pro rapaz. Olha como eu sou legal? Sério, eu não sou muito legal?

Ou, veja bem, talvez, eu disse talvez, pessoal; talvez eu só esteja tentando aliviar minha consciência por ter antipatizado gratuitamente com um gordinho chorão. Porque ‘gordinho chorão’ é a imagem que o livro ‘Divórcio’ me passou do Ricardo Lísias, mesmo que o personagem e o autor sejam pessoas distintas - apesar de terem o mesmo nome. Algo dentro de mim diz que é errado desgostar de um ser-humano pelo simples fato d’ele ser um gordinho chorão. Ainda mais se a imagem de ‘gordinho chorão’ for, hm, questionável e tiver se formado com base num processo altamente preconceituoso deste que vos fala.

Mas tá aí mais um motivo preu não gostar do Ricardo Lísias. Além de ser um gordinho chorão, ele me confundiu. Li uma entrevista em que ele dizia que as pessoas que leem romances tendem a confundir o personagem com o autor. Isso não é verdade, eu nunca confundo autor com personagem! Mas vamos supor que as pessoas fazem mesmo isso. Aí, meio que pra questionar esse lance de as pessoas confundirem tudo, o Ricardo Lísias nomeia os personagens principais de seus livros com seu próprio nome. Isso sim me confunde e eu não consigo mais separar as coisas. Se eles têm o mesmo nome, e o autor é gordinho e o personagem é chorão, as características dos dois se fundem numa única pessoa. E eu não gosto dessa pessoa.

Eu não queria ser o tipo de pessoa superficial que antipatiza com gordinhos chorões. Mas acho que eu sou. Preciso gostar de ‘O céu dos Suicidas’ para me sentir melhor comigo mesmo. Ou o Ricardo podia emagrecer um pouco, né? Digo, não!, não é bem isso, pessoal. Calma. Olha, eu só queria poder desgostar de todo mundo sem sentir culpa nenhuma no processo. Eu não sou antipático!

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Esse texto foi escrito por Iulo Duarte, um personagem criado por Iulo Duarte.