02:56 pm, iulo
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verão

A frieza dela é palpável como essa camada de gelo – era o que eu pensava, não de forma tão clara, todas as vezes que abria a geladeira para pegar uma cerveja no congelador. Era uma frieza quase patológica, levemente sociopata – eu gostava de pensar; uma frieza racionalmente explicada por uma série de defesas e proteções das quais ela necessitava e a protegiam de sofrer. Essa frieza me machucava com tal força que eu não entendia de todo como pude passar tanto tempo em meio àquela atmosfera arrefecida antes de adoecer. Não tente aquecer-se abraçando um porco-espinho, dizia um ditado de uma tribo indígena que eu inventara.

​​A frieza dela era fascinante como um quebra-cabeça criado a partir de uma grande imagem abstrata que, mesmo montado, você não consegue compreender. Exceto que a recompensa final não era apenas o orgulho pela resolução do puzzle. Concluir o quadro ou entender o que se contemplava pouco tinha importância. A recompensa real era o processo de liquefazer lentamente todas as camadas daquela alma gélida, uma a uma, e, sob a minha língua, vê-la aquecer-se e molhar-se intensamente, como as pequenas pedras de gelo que eu gostava de observar derreter sob o sol da varanda. Não importava com quantas queimaduras ou enfermidades eu saísse do processo – poucas coisas neste mundo eram tão bonitas de se ver.


11:07 am, iulo
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'Sou contra porque isso é paixão, é amor. A única obsessão que todo mundo quer ter: o amor. As pessoas pensam que quando se apaixonam ela se completam? A união platônica das almas? Pois eu não concordo. Eu acho que você está completo antes de se apaixonar. E o efeito do amor é fracionar você. Antes você está inteiro, depois você racha ao meio. Ela era uma corpo estranho que havia se introduzido na sua integridade. E que você passou um ano e meio tentando incorporar. Mas você só vai conseguir ficar inteiro depois que expelir esse corpo estranho. Ou bem você se livra dele ou bem você o incorpora, distorcendo a si próprio. E foi isso que você fez, e foi por isso que você enlouqueceu.'

(O Animal Agonizante, Philip Roth)


11:56 am, iulo
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'Era uma doença. E não tinha cura. E eu adoeci daquela mulher. Contraí o vírus da sua insensatez.'

(Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios, Marçal Aquino)


11:56 am, iulo
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'Ela me abraçou e encostou a cabeça em meu peito, bem em cima do meu coração atropelado.'

(Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios, Marçal Aquino)


11:28 am, iulo
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'Porque é só quando você fode que tudo aquilo de que você não gosta na vida, tudo aquilo que derrota você na vida, é vingado da maneira mais pura, ainda que efêmera. É só nesse momento que você está vivo do modo mais limpo, que você é você do modo mais limpo. Não é o sexo que é corrupção – é o resto. Sexo não é só atrito e diversão superficial. É também a maneira como nos vingamos da morte. Não se esqueça da morte jamais. É verdade, também o sexo tem um poder limitado. Eu sei muito bem quais são os limites desse poder. Mas me diga uma coisa: existe poder maior?'

(O Animal Agonizante, Philip Roth)


11:28 am, iulo
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'Foi emocionante? Fiquei deliciado? Mesmerizado? Sem dúvida, porém senti-me menino outra vez. Eu havia decidido exigir o máximo dela, e quando ela cedeu, desavergonhadamente, acabei intimidando a mim mesmo. Tinha a impressão de que não restava nada a fazer – para não ser totalmente humilhado por aquela naturalidade exótica dela – senão ajoelhar-me e lamber suas coxas até deixá-las limpas. O que ela permitiu que acontecesse sem fazer nenhum comentário. Infantilizando-me mais ainda. A personalidade absurda de quem se é. A estupidez de ser você mesmo. A comédia inevitável de ser alguém. Cada novo excesso me enfraquece mais ainda – mas o que pode fazer um homem insaciável?'

(O Animal Agonizante, Philip Roth)


03:59 pm, iulo
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echoes

Não há nada mais triste que o fim das coisas. A tristeza nos é garantida por um contrato silencioso que todos assinamos ao existir. Tudo foi feito para acabar - todas as coisas são um potencial infinito de tristezas.

Viver bem é aprender a aceitar o fim de todas as coisas como algo natural e maravilhosamente inevitável. Como sentir sono ou fome. É aprender a ver a beleza que há no caos da finitude.

São os tristes fins que fazem os começos serem tão bonitos.
Então que sempre haja espaço para recomeços.
Que no lugar do medo haja sempre amor.
__________

You’re the metaphors I can’t create
To comprehend this curse that I call love


03:34 pm, iulo
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'amor
sua existência
me acusa
dos dias
superficiais
em que você não estava’

(Estudos Para o Seu Corpo, Fabrício Corsaletti)


01:33 pm, iulo
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'a ternura
como último desdobramento da revolta’

(Estudos Para o Seu Corpo, Fabrício Corsaletti)


08:12 am, iulo
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'As histórias bonitas aconteciam por acaso, e eu acabara de aprender que a vida tem de ser mais à deriva, mais ao acaso, porque quem se guarda de tudo foge de tudo.'

(A Máquina de Fazer Espanhóis, Valter Hugo Mãe)


10:22 am, iulo
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Num acesso aleatório de fé, irrompia de seu costumeiro estado parcialmente-ateu e rogava: Deus, livra-me de tudo que não é espontâneo.


11:04 am, iulo
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pare de me entender

'Para de ser tão sensacional. Porque tudo que eu tenho pra oferecer é essa inquietude e um mau humor matinal terrível. Pare de ser essa criatura docemente gentil enquanto eu me ocupo com minhas crises pessoais que me estraçalham de vez em quando e te levam junto. Pare de escrever poesia com esses seus olhos lindos, quando tudo que eu tenho são palavras amargas e viscerais. Não me traga mais chocolates enquanto eu reclamo de você, de mim, de nós.

Pare com esse sorriso de menino enquanto eu devaneio nessa minha “adultice” fajuta. Não me diga mais que eu sou incrível e que te faço feliz. Cada gesto sublime seu significa uma oportunidade de eu me convencer do quanto eu nunca faço nada pra merecer.

Pare de ser certeza no meio do meu oceano de dúvidas, pare de ser música nesse meu silêncio sepulcral, deixe de lado essa tolerância que parece que não termina nunca. Pare de me impulsionar pros meus sonhos enquanto eu não faço a menor ideia do que fazer para apoiar os seus. Pare de ser essa atenção enquanto eu me distraio. Você sabe tanto sobre como fazer dar certo e eu sou campeã em fazer tudo errado. Pare de me esfregar a tua nobreza na cara enquanto eu aprimoro as minhas paranóias.

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12:38 pm, iulo
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somos pó

Coloco os fones de ouvido e sigo em direção à praia. Alongo pernas e braços preguiçosamente. É domingo. Jovens pais brincam com seus filhos na areia. Caminho sem pressa, de costas para o sol. Na areia molhada e dura as ondas vez ou outra alcançam meus pés. Um casal em torno de seus 50 anos caminha de mãos dadas. Homem e mulher me observam despreocupados ao passar. Me pergunto se da mesma forma que eu tento projetar a minha vida futura neles, eles revivem o passado em mim. Se veem em mim a semelhança de um filho, se sorriem por dentro, se cochicham entre si uma piada particular. Começo a correr. Meus pés fazem o peso do mundo reverberar pelas minhas pernas enquanto eu o pisoteio compassadamente. Pessoas de diferentes idades praticam diversas atividades na areia. Homens jogam vôlei ou futebol, mulheres fazem alongamento. Um casal jovem faz corridas curtas e rapidíssimas. Perco o fôlego e volto caminhando pela parte mais fofa da areia. No chão, pegadas contam passeios. Mais casais andaram por ali com filhos pequenos. Um homem de pé grande passou com um cachorro de médio porte. É um esforço prazeroso ver o mundo ceder ao peso do meu calcanhar. Pelas marcas no chão vejo que uma moça caminhou sozinha, e apenas me dou conta de que era uma moça e sozinha quando tento comparar a minha pegada com a dela. Meu pé me parece maior do que eu imaginava. Quantas vezes mais passarei por essa praia?, quais pegadas deixarei nela? Somente a minha? Haverá companhia? Precisamos todos de companhia?, questiono vagamente e o mar ao meu lado parece não se importar. Certamente não serei o pai que brinca com o filho na areia. Serei o marido de cabelos grisalhos que segura a mão da sua esposa numa manhã parcamente ensolarada de domingo? Com certeza não serei o rapaz que caminha com o cachorro bobo e babando ao lado. Começo a me sentir desconectado de tudo – da terra que piso, do céu que me cobre, das pessoas que me rodeiam; o mar é apenas uma poça de tão distante que me encontro dali. Estou flutuando na atmosfera. Não sou o surfista esquisito que conversa com uma moça morena, forçando uma intimidade que não existia alguns minutos antes. Olho para trás e minhas próprias pegadas não se distinguem de nenhuma outra. Tudo é um emaranhado de infinitos grãos irregularmente amontoados. Eu sou mais um. Minha solidão é apenas mais uma. Estamos todos sós.


09:33 am, iulo
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love love love

'We accept the love we think we deserve'.

Qual amor eu mereço?, é a pergunta dessa existência.


09:58 am, iulo
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