
Terminei de ler ‘O Evangelho Segundo Jesus Cristo’ e o fiz como quem se despede de um amor. É José Saramago, não tenho muito o que dizer. Além da linguagem apaixonante, é um livro maravilhoso pelas ideias que ele abraça - para quem tem ou teve uma relação próxima com a igreja é um prato cheio para muita reflexão e risos. Para quem não se permite questionar a sua fé, é um prato cheio de ofensas e heresias.
Mas o que realmente me fez adorar o livro foi a forma como ele diz as coisas, não necessariamente o que se diz. Foram passagens como essa que o colocaram no topo da minha lista de favoritos:
‘A noite ainda tem muito para durar. A candeia de azeite, dependurada de um prego ao lado da porta, está acesa, mas a chama, como uma pequena amêndoa luminosa pairando, mal consegue, trêmula, instável, suster a massa escura que a rodeia e enche de cima abaixo a casa, até aos últimos recantos, lá onde as trevas, de tão espessas, parecem ter-se tornado sólidas.’
Claro que as partes que envolvem ideais e religião são igualmente magníficas. Para ficar em somente um blasfemo trecho segue:
‘Esta idade é dura e de ferro, o tempo dos milagres, ou já passou, ou ainda está para chegar, além disso, milagre, milagre mesmo, por mais que nos digam, não é boa coisa, se é preciso torcer a lógica e a razão própria das coisas para torná-las melhores.’
Mais que recomendo.
É um pena que, para absorver o livro por completo, acho que é preciso conhecer bem os evangelhos oficiais.